CASTRO ALVES: O NEGRO E A IDENTIDADE NACIONAL
Os momentos de crise são partes preponderantes na história do homem. Eles vão formando as identidades individuais, de grupos, de nações. As crises foram mais contundentes entre os séculos XVIII e XIX, impulsionadas pelos principais movimentos conjunturais – Iluminismo, Revolução Industrial, Revolução Francesa – que fizeram eclodir, dentre outras, as lutas pelas nacionalidades nos mais diferentes cantos do Ocidente. Estes rastilhos de pólvora chegaram às colônias espanholas e portuguesas.
No caso brasileiro, o anseio de autonomia político-econônica se delineia no século XVIII com a Inconfidência, gerando o sentimento nativista. Este transmuta-se em nacionalismo com a Independência de l822 que corrobora de modo decisivo no desenvolvimento do Romantismo, surgido l4 anos depois. A Independência, no dizer de Antonio Candido “contribuiu com pelo menos três elementos (...): a) desejo de exprimir uma nova ordem de sentimento (...)”, espécie de “orgulho patriótico, extensão do antigo nativismo; b) desejo de criar uma literatura independente, diversa”, visando a um “ nacionalismo literário e à busca de modelos novos, nem clássicos nem portugueses (...)”; c) anseio de uma “atividade intelectual como tarefa patriótica na construção nacional”.[1]
Os itens acima apontam para a procura da identidade nacional. Semelhante indagação envolve, como se sabe, os mais variados aspectos da realidade cultural de um povo. E para traçar um breve perfil desse primeiro momento da formação da identidade brasileira, no Romantismo, foram escolhidos dois aspectos: a etnia e a literatura, tendo o último como parâmetro Castro Alves.
A palavra identidade, já há alguns anos, entre sociológos e antropólogos, vem sendo “associada à palavra etnia, para gerar identidade étnica”[2]. Etnia, conforme Brandão ,“pretende ser um termo científico que substitui uma idéia arcaica e carregada de preconceitos: raça.”[3] É, portanto, entendida como “ grupo biológico, culturalmente homogêneo” que articula a “noção de identidade e de padrões culturais.” Todavia um “grupo étnico” só se concretiza na realidade social. Dentro dessa perspectiva existem algumas combinações possíveis como a que “combina a identidade minoritária com cultura simples em conjugação com maiorias sociais de cultura complexa, como é o caso dos índios brasileiros” [4] e acrescento também o negro, ambos os grupos, em contato com a cultura portuguesa, complexa, principalmente, nos primeiros séculos da nossa colonização e décadas após à Independência. Desse modo, o confronto entre culturas desiguais de grupos étnicos diferentes altera “as condições substanciais de produção da vida e do pensar sobre a vida”.[5]
A identidade também pode ser compreendida a partir da psicologia e da psicanálise como um conceito que explica o sentimento pessoal e a consciência da posse do eu, da realidade individual diante de outros eus. A consciência da própria identidade se efetiva frente à de outras pessoas. Assim sendo “ a idéia de identidade tem a ver tanto com os dramas individuais quanto com os dramas sociais da história do grupo e da cultura de que é parte”.[6]
A formação das identidades implica, em geral, mais perdas para as chamadas “minorias de cultura simples” do que ganhos. São obrigadas a abrir mão de seus princípios e valores culturais para assimilar outros que, quase sempre, nada têm a ver com sua identidade étnica. Foi isso o que aconteceu com os índios e os negros no Brasil, no período colonial e depois. Lógico que tal não ocorreu apenas aqui. Outros países também se viram em semelhante situação ao tentar consolidar suas nacionalidades.
A consolidação da nacionalidade brasileira implica, portanto, a formação de uma identidade étnica. Na base tem-se, como é conhecido, o branco (português), o índio e o negro. Os dois primeiros foram já assimilados no início do Romantismo como integrantes da identidade nacional, o negro não. Todavia, no plano sócio-político o índio foi tão “espoliado em seus direitos e sacrificado “quase tanto quanto o negro.” Entretanto, se o verdadeiro índio não teve melhor sorte que o negro, o índio literário mereceu toda a atenção”[7] e como tal veio a satisfazer à ideologia dominante. Assim a tematização de sua união com o português, como bem representa Iracema, de José de Alencar, legitima a civilização lusitana aqui instaurada. Além desse, outros fatores faziam do índio o componente étnico privilegiado como: a consagração do autóctone pelos escritores europeus; a necessidade de um passado primordial que, similar à Idade Média européia, fosse lenda e história; a posição dos jesuítas contra a escravização do índio e favoráveis à do negro; a existência indígena afastada dos brancos, favorecendo à idealização romântica. Por tudo isso, o índio torna-se o elemento étnico por excelência nessa busca da identidade étnica nacional. Em outras palavras, serviu como “manancial plástico e poético, fator de nacionalização e símbolo de identidade da pátria”[8].
A presença do negro, na literatura, foi ignorada até o final do século XVIII, sem que se esqueça Gregório de Matos no Barroco. Foi escamoteada e bloqueada o quanto possível no Romantismo. “O negro era visto como uma realidade degradante, sem categoria de arte, sem lenda”[9]. Daí ser mais fácil aceitar uma ancestralidade indígena que uma origem africana, às vezes, disfarçada através daquela. Outra, o negro escravizado e misturado à vida quotidiana em posição de inferioridade, não podia facilmente elevar-se a objeto estético, à idealização numa literatura ligada ideologicamente à estrutura de castas.[10]
A presença do negro na vida brasileira era muito forte no campo, na cidade, na família e, ao mesmo tempo, incômoda. Procuravam neutralizá-la através das teorias do chamado “racialismo romântico”, adotadas do mundo europeu, como tantas outras, pelos brasileiros oitocentistas sem crítica. Dos vários matizes desse racialismo, destacam-se o biológico e o cristão. Os argumentos biológicos procuravam diferenças na anatomia e na fisiologia para justificarem a imaginária inferioridade do negro. Julgavam-no de “natureza infantil”, portanto, incapaz de assumir as responsabilidades da liberdade. O outro matiz, o racismo cristão, “via a escravidão como um regime ameno e desejável”, supondo que “os africanos, abrigados num país cristão, viviam melhor do que na África, infestada de paganismo”.[11] Uma das justificativas desse tipo de racismo era o relato do Gênesis (IX,20-27) sobre a maldição de Canaã, identificando os negros com os filhos de Cam. Este foi amaldiçoado por ter visto o pai nu. E a racionalização racista, interpretando a Bíblia, em que não há nenhuma referência à cor preta, via como natural a escravidão dos negros, anatematizados por extensão de culpas ancestrais. Não quiseram entender, por conveniência, por apaziguamento de consciência, ou por qualquer outra razão, que os diversos tipos humanos são variações de uma mesma espécie, fato tão comum na biodiversidade do universo, como as variações entre felinos, muares ou mesmo plantas.
Paralelas a essas teorias para manter e justificar a escravidão, começaram a surgir, na Europa do século XVIII, uma perspectiva humanista em relação a situação do negro escravizado. Eram inspiradas, de um lado, nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução francesa e, de outro, talvez, fossem camuflagem aos interesses econômicos, tendo em vista o acelerado desenvolvimento industrial que começava a se espalhar. Não eram lucrativas ao capitalismo as sociedades escravistas.
A inteligência brasileira romântica absorve a filosofia, o liberalismo oitocentista com seu repúdio à tirania aristocrática. Professa crença e otimismo no progresso, nas reformas sociais sem, no entanto, ameaçar a estabilidade da propriedade privada [12] e os valores da burguesia urbana e rural. Achava-se o Brasil, então, sob a égide de um governo monárquico conservador, de um regime escravista, de grandes latifúndios e de uma política de exportação. Não teve, portanto, o nosso Romantismo preocupações com o proletariado e as reivindicações sociais vividas pela Europa. Aqui, a pobreza e a escravidão eram retratadas de modo sentimental para comover o leitor e não para questionar valores da sociedade. Os nossos escritores românticos valeram-se dos temas e motivos mais gerais e menos polêmicos popularizados pelo movimento europeu como, por exemplo, o louvor à pátria, o cantar a natureza, o amor. No tocante à escravidão, as obras pintavam uma convivência, entre senhores e escravos, revestida de uma caráter mais benevolente do que nas outras sociedades escravocratas do continente. Nessa linha, em O tronco do ipê, Alencar mostrava as vantagens do escravo brasileiro em relação ao proletário europeu, já que aquele tinha casa e comida. Camufla, assim, o polemista de Magalhães a dignidade do negro aviltada Nessa obra o negro é sempre servil, sem vontade própria, sem questionamento. “Ao tomar a palavra, fala do branco e não de si próprio, da casa grande e não da senzala.”[13]
A contraposição a essa representação da ideologia dominante em relação ao negro vai surgindo no Romantismo de maneira tímida e esporádica nas primeiras fases do movimento e ganha força de questionamento sócio-político na última, a fase condoreira. É, pois, na literatura em que primeiro surge o negro como ser humano e como problema social. A partir da década de quarenta aparece, então, como um ser que “Sofreu tormentos, porque tinha um peito/Qu’inda sentia”, como se vê em “A escrava” (l846), de Gonçalves Dias; é mostrado como estudo de costumes nas peças “O demônio familiar” (l857) e “Mãe” (l859), de José de Alencar. Os romances e as peças teatrais, em geral, falavam mais sobre a escravidão que sobre o negro. E, em todo o Romantismo mesmo com o movimento abolicionista, a temática dominante não era a pessoa do negro escravizado, mas a instituição, ou seja, aquele como indivíduo ou coletividade foi esquecido. As personagens criadas pelos escritores veiculavam as convicções abolicionistas, mas deixavam transparecer em suas falas os preconceitos, as tendências arraigadas, reveladoras do racismo há séculos latente no pensamento ocidental, [14] reforçado pela visão pseudo-científica sobre o negro.
A consciência sobre o negro progrediu no Romantismo como sentimento humanitário. Isso verificou-se, primeiro, entre os poetas. Pode ser encontrada em Gonçalves Dias, citado a cima, em Varela que deu uma consistência mais nobre ao negro, ao traçar-lhe um perfil heróico no poema “Mauro, o escravo” (l864). Mas só Castro Alves iria vê-lo como ser humano integral, com paixões, heroísmos, fraquezas, revoltas. Está, então, lançada, pode-se dizer, a semente efetiva de uma possível aceitação do negro como “grupo étnico”, formador também da identidade nacional. Tal fato foi melhor trabalhado, não sei se totalmente assimilado e compreendido, pela literatura do século XX, em obras como Os poemas negros , de Jorge de Lima, A tenda dos milagres, de Jorge Amado, Fogo morto, de José Lins do Rego ou em obra sociológica como Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, só para citar algumas.
Antonio Candido considera a poesia negra de Castro Alves como um verdadeiro milagre[15], levando-se em conta o conflito para conciliar o liberalismo, a perspectiva humanitária, o entusiasmo com o progresso, as aspirações políticas com as filosofias racistas subjacentes e “ as exigências de uma sociedade fundamentalmente agrária e de cunho aristocrático que se apoiava de norte a sul no trabalho escravo” [16]. Para o crítico, “Trazer o negro à literatura como herói foi, portanto, um feito apenas compreensível à luz da vocação retórica daquele tempo, facilmente predisposta à generosidade humanitária”.[17] Pode ser que o Mestre Candido tenha razão, mas só em parte. Não se pode esquecer que Castro Alves era um adolescente de 16 anos, quando escreveu seus primeiros versos abolicionistas, em 1863. Mesmo sendo fortemente influenciando pelo contexto histórico externo e interno, a meu ver, há em sua poesia uma certa dose de sinceridade quanto ao seu ideal socialista, uma vez que a generosidade é natural em jovens bem formados de caráter. No caso do poeta dos escravos, pode-se acrescentar a sensibilidade artística e a atitude,dele, apaixonada diante dos fatos da vida: pessoais e públicos.
Dentre os temas abordados por Castro Alves – o lírico amoroso, natureza erotizada etc. –, destaca-se, nesse trabalho, o social libertário presente nas seguintes obras: Os escravos (l883), Cachoeira de Paulo Afonso (l876) e Gonzaga ou a Revolução de Minas (l876).A nenhum desses livros viu Castro Alves publicados. Apenas Espumas flutuantes saiu em l870, ano anterior a sua morte.
Nessas obras, o autor de “Vozes da África” projeta flashes líricos sobre a infame travessia marítima dos negros, sobre os séculos de sofrimento e dor da existência dos escravos. Levanta uma pontinha da couraça ideológica dos racismos cristão e biológico e dos próprios efeitos retóricos que, muitas vezes, encobrem as agruras físicas e morais dos negros.(...) Em vários poemas são des-velados diferentes mecanismos de degradação e aviltamento do negro como “grupo étnico”, como em “O navio negreiro”:
Tinir de ferros... estalar de açoite,
Horrendos a dançar...
.................................................
Outras, moças...mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
.......................................................
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Outras vezes, o des-velamento é sobre a dignidade individual vilipendiada de vários modos: pelo estupro das mulheres pelos senhores e feitores:
Restava inda um segundo...um só p’ra me salvar,
..........................................................................
Ninguém! Ninguém me acode. (...)
.............................................................
“E agora está concluída
Minha história desgraçada.
Quando caí – era virgem!
Quando ergui-me – desonrada!”
(“No monte”)
Ora o desespero do desterrado e espoliado em todos os sentidos:
“—Senhores! Basta a desgraça
De não ter pátria nem lar,
De ter honra e ser vendida
De ter alma e nunca amar!
(“Tragédia no lar”)
Os dois últimos trechos de poemas, como em outras obras, mostram a ligação do poeta não só com as idéias humanitárias e com o seu aqui e agora estético, mas também com as tradições literárias brasileira e européia, ao fazer sobressair a voz feminina, tal qual ocorre nos poemas “Leito de folhas verdes” e “Marabá”, de Gonçalves Dias, lembrando ambos, os poetas, as cantigas de amigo medievais. Porém, se em Gonçalves Dias, similar às cantigas de amigo, a mulher canta a ausência do amado ou o desejo de ser amada, em Castro Alves a aproximação é apenas formal, não temática, porque a escrava, destituída daqueles direitos, só lhe resta lamentar a perda da dignidade e da honra. Esta voz feminina levantada pelos poetas, apesar das restrições que a envolve, é bastante significativa como expressão dentro da sociedade patriarcal do século XIX. É o esboço do reconhecimento, aqui, da mulher também como sujeito histórico.
Mostram, ainda, as obras acima o brado de revolta do negro que busca justiça, liberdade e vingança. Revelam os levantes que, como os tormentos acima mencionados, praticamente foram obliterados na maioria dos romances e peças teatrais . Falam também do desumano comércio que separava as famílias escravizadas pela venda de seus diferentes membros a compradores diversos:
Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
P’ra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este – irmão da mulher que manchaste...
.............................................................
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce , cresce, vingança feroz.
Por meio desses motivos e outros Castro Alves recompõe a figura humana do negro, mostrando-o igual ao branco em sua dor, revolta, ódio, capacidade de amar, de vingar-se. E, assim, o poeta de “São Francisco” abre as cortinas da realidade sobre a vida do escravo. Torna, via humanitarismo, mais compreensiva e aceita a contribuição do negro, como o terceiro pilar da formação da identidade étnica nacional .A contribuição do negro se faz presente nos mais variados setores da cultura brasileira. Sem que se esqueça a miscigenação, está presente na linguagem, na culinária, na música, na dança, nas crenças afro-brasileiras, no imaginário nacional desde as histórias contadas pela mãe-preta aos filhos dos senhores até o mito da mulata e muito mais como bem nos mostra Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre.
Depois de feita a incorporação do negro na literatura, na última fase do movimento romântico, continuou a tendência para neutralizar a negritude através de traços do branco no mestiço, no mulato. O objetivo era enquadrá-la à sensibilidade do branco, fazendo-a aceitável pela “homogeneização racial”, ou seja, pela “ideologia do branqueamento”[18], vista por muitos críticos como mais uma argumento de cunho racista. A “ideologia do branqueamento” transpôs os limites do século XIX e nem Mário de Andrade conseguiu escapar dela, pois o seu herói,’”sem nenhum caráter”,em Macunaíma, para vencer e lutar de igual para igual com o italiano Pietro Pietra, na cidade grande, precisou se metamorfosear em branco.
No Romantismo os exemplos desse procedimento são numerosos, como se pode constatar, por exemplo, em A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, cuja heroína tinha tez clara e predicados e virtudes atribuídos, na época, à mulher branca Também Castro Alves não consegue fugir à camuflagem ideológica do branqueamento e neutraliza a negritude de seus motivos femininos por meio da palavra “morena –“Minha Maria é morena”, ou então dando-lhes “cabelos anelados”.
Esses exemplos mostram as barreiras sociais, psíquicas e estéticas que os poetas precisaram transpor — neles e nos outros — para incorporarem o negro na literatura. Daí a idealização dos traços físicos e morais com que são apresentados o negro.[19]. A idealização foi, para Antonio Candido, o traço mais original, mais importante e positivo da poesia negra de Castro Alves. Foi ela que permitiu, no terreno lírico, impor o escravo à sensibilidade burguesa, não como espoliado ou mártir, e sim como ser igual aos demais na ternura, no pranto, na maternidade, na solidariaedade. E parafraseando o que foi dito de Anchieta, “o apóstolo dos gentios”, o mesmo talvez não seja absurdo dizer de Castro Alves, ”o apóstolo dos negros”, pois deu-lhes “não só um brado de revolta, mas uma atmosfera lírica em que os seus sentimentos podiam encontrar amparo, ao garantir à sua dor, ao seu amor a categoria reservada aos do branco ou do índio literário”[20].
O entendimento do caldeirão étnico que hoje constitui a identidade nacional só é possível, se se tiver plena consciência dos primeiros séculos de sua formação com todas as ideologias e filosofias racistas em relação ao negro e do esforço, consciente ou não, dos escritores para não falsearem a gênese da etnia brasileira. E Castro Alves foi a alavanca desse entendimento ao reconhecer o espaço humano e literário, na cultura brasileira, pertencente ao negro tanto quanto ao índio e ao branco.
A contribuição do negro como um dos pilares da formação da identidade nacional teórica e literariamente parece aceita. Porém, no quotidiano da vida brasileira, prevalecem dominantes, em grande parte da população, as teorias racistas oitocentistas, discriminando o negro de mil maneiras, camufladas com a falácia de que não há racismo no Brasil. Enevoam, assim, a plena aceitação do negro, elo indissolúvel da identidade nacional, pois como diz Gilberto Freyre: “Todo brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo(...) a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”[21]. Ou pode-se, ainda, recordar a teórica afirmação do nosso saudoso Vinicius de Morais que se considerava “o branco mais preto do Brasil”.
Em síntese, todos os estudos teóricos e o entendimento geral da presença do negro na formação de nossa identidade nacional, posteriores ao Romantismo, pagam tributos à literatura e, em especial, a Castro Alves.
Referências Bibliográficas:
BRANDÃO, C.R. Identidade e etnia/ Construção da pessoa e resistência. São Paulo: Brasiliense,1986.
CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo EDUSP, 1975.Vol 2
CUNHA, F. “Castro Alves”. In: COUTINHO, A.(Org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996. Vol 3.
FREYRE, G. Casa grande & senzala. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
GOMES, H. T. O negro e o romantismo brasileiro. São Paulo: Atual, 1988.
MUNANGA, K. Negritude/Usos e sentidos. São Paulo: Ática, 1986. (Série princípios)
[1] CANDIDO, A. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1975. p. 11.
[2] BRANDÃO, C. R. Identidade e etnia/Construção da pessoa e resistência. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 36.
[3] Idem. p.9.
[4] Ibidem. p.10.
[5] Ibudem. p. 39.
[6] Ibidem. p. 40
[7] GOMES,H. T. O negro e o romantismo brasileiro. São Paulo: Atual, 1986. p 2.
[8] Idem. p. 27.
[9] CANDIDO, A. op. cit. p. 275.
[10] Ibidem. p. 275.
[11] GOMES, H. T. op. cit. p. 11.
[12] Ibidem.p.21.
[13] Ibidem. p. 39.
[14] Ibidem. p. 17.
[15] CANDIDO, A op. cit. 276.
[16] GOMES,H.T. op. cit. p. 16.
[17] CANDIDO, A., op. cit. p. 275.
[18] GOMES, H.T. op. cit. p. 38.
[19] CANDIDO, A .op.cit. p. 279.
[20] Ibidem. p. 279.
[21] FREYRE, G. Casa grande & senzala.Rio de Janeiro: José Olympio,1978.p.283.